me sinto muito feliz por isso
Rótulos me parecem cada vez mais precários. Às vezes mais confundem do que esclarecem. Mas eventualmente são indispensáveis para que as coisas tomem forma, destacando-se da complexa realidade e do nebuloso pensamento nosso. A maior parte dos textos deste livro podem-se chamar de crônicas. Muitos foram publicados em jornal, outros são avulsos que saíram não lembro bem quando nem onde, ou apenas salvei no computador. Vários escrevi especialmente para este livro. Romances, ensaios, poemas e textos breves são o meu jeito de rondar algo que me assusta ou seduz. São os meus temas, alguns dos temas humanos: tramas e dramas existenciais, o sentido o valor da vida, o banal e o misterioso. A sentença que lançamos sobre nós mesmos, em nossas escolhas ou silêncios. Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. Aqui e ali, a noite escura. Não inventei ao dizer que meu leitor é cada vez mais a síntese dos amigos imaginários que me fizeram companhia na infância das minhas perplexidades. Então, venha comigo. Lya Luft - Pensar é Transgredir
"60% dos jovens de periferia, sem antecedentes criminais, já sofreram violência policial. Há cada 4 pessoas mortas pela policia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. Há cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo. Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente..."
(...)
Brown: Colou dois manos, um acenou pra mim, de jaco de cetim, de tênis e calça jeans...
Ice Blue: Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola... Não vale a pena dar ideia nesse tipo, aí! Ontem à noite, eu vi na beira do asfalto tragando a morte, soprando a vida pro alto... Ó os caras: só pó, pele e osso, no fundo do poço com vários flagrantes no bolso...
Brown: Veja bem, ninguém é mais que ninguém, veja bem, veja bem, eles são nossos irmãos também...
Ice Blue: Mas de cocaína e crack, whisky e conhaque, os manos morrem, rapidinho, sem lugar de destaque!
Brown: Mas, quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma? Nem dá, nunca te dei porra nenhuma! Você fuma o que vê, entope o nariz, bebe tudo o que vê, faça o diabo feliz!
Você vai terminar, tipo um outro mano lá que era um preto, tipo A, ninguém tava numa, mó estilo, de calça Calvin Klein e tênis Puma, é... no jeito humilde de ser no trampo e no rolê... Curtia uns funks, jogava uma bola, buscava a preta dele no portão da escola... Exemplo pra 'nóis', mó moral, mó ibope, mas começou a colar com os branquinhos do shopping... aí, já era! Ih, mano, outra vida, outro pique... só mina de elite, balada, vários drinks... Puta de boutique, toda aquela porra, sexo sem limite, sodoma e gomorra. Faz uns nove anos, tem uns quinze dias atrás eu vi o mano, cê tem que ver: pedindo cigarro para o tiozinho no ponto, dentes todos zoados, bolso sem nenhum conto. O cara cheira mal, a tia sente medo, muito louco de sei-lá-o-que logo cedo! Agora, não oferece mais perigo... viciado, doente, fodido, inofensivo!
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Brown: Colou dois manos, um acenou pra mim, de jaco de cetim, de tênis e calça jeans...
Ice Blue: Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola... Não vale a pena dar ideia nesse tipo, aí! Ontem à noite, eu vi na beira do asfalto tragando a morte, soprando a vida pro alto... Ó os caras: só pó, pele e osso, no fundo do poço com vários flagrantes no bolso...
Brown: Veja bem, ninguém é mais que ninguém, veja bem, veja bem, eles são nossos irmãos também...
Ice Blue: Mas de cocaína e crack, whisky e conhaque, os manos morrem, rapidinho, sem lugar de destaque!
Brown: Mas, quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma? Nem dá, nunca te dei porra nenhuma! Você fuma o que vê, entope o nariz, bebe tudo o que vê, faça o diabo feliz!
Você vai terminar, tipo um outro mano lá que era um preto, tipo A, ninguém tava numa, mó estilo, de calça Calvin Klein e tênis Puma, é... no jeito humilde de ser no trampo e no rolê... Curtia uns funks, jogava uma bola, buscava a preta dele no portão da escola... Exemplo pra 'nóis', mó moral, mó ibope, mas começou a colar com os branquinhos do shopping... aí, já era! Ih, mano, outra vida, outro pique... só mina de elite, balada, vários drinks... Puta de boutique, toda aquela porra, sexo sem limite, sodoma e gomorra. Faz uns nove anos, tem uns quinze dias atrás eu vi o mano, cê tem que ver: pedindo cigarro para o tiozinho no ponto, dentes todos zoados, bolso sem nenhum conto. O cara cheira mal, a tia sente medo, muito louco de sei-lá-o-que logo cedo! Agora, não oferece mais perigo... viciado, doente, fodido, inofensivo!
Irmão, você tem um sonho? E, o que te impede de acreditar que você é realmente do tamanho do seu sonho? O que te impede de levantar todos os dias e correr pelo que você acredita? Hein? Eu acredito que o poder de transformação, realmente, tá na mão da gente... morô, mano? Eu sou a prova dessa parada!
Ah, que se o amor não é mais como antes, meu bem, deve ser do mundo que gira ou de uma outra mulher, a culpa. Deve ser do tempo que passa e das rugas distantes do rosto, mas vistas de longe no fundo da alma; do gosto que muda de quando em vez. Calma! Espere por mim (de novo e sempre um carinho se fez). Não vale a pena sangrar por sangrar, crescer de véspera, fugir diante das palmas, lembrar de rolar um pranto, enfim... Não durma antes de sonhar...
Excesso desmedido, compulsivo e insensato. Acontece que uma hora isso tudo tem que
acabar e você tem que amadurecer. Tá, que amar desmedido é uma delícia, mas
comedimento e racionalidade fazem muito bem, obrigada. Por entre lençóis, eram muitas as
vezes em que eu não entendia a minha permanência teimosa naquela cama vazia. isso
bastou até o momento em que não bastou mais. Você me bastou até me faltar. Era um
sentimento loucamente desenfreado, que fez o quarto ficar pequeno, o apartamento ficar
pequeno, os sonhos ficarem pequenos.. no fim das contas, foi você quem ficou pequeno
demais pra mim. Me escorria amor por entre os dedos enquanto o destinatário tinha a caixa
de correio abarrotada por envelopes ainda selados. Amor em demasia, pra uns, é amor
demais. Redirecionei. Aluguei um depósito, depois outro e outro. Não pedi nada de volta,
deixei contigo as linhas torpes de um amor que não coube mais em cativeiro. Contigo ainda
existem envelopes meus que hoje já não significam nada. Não significam mais nada.
Driih linda!
acabar e você tem que amadurecer. Tá, que amar desmedido é uma delícia, mas
comedimento e racionalidade fazem muito bem, obrigada. Por entre lençóis, eram muitas as
vezes em que eu não entendia a minha permanência teimosa naquela cama vazia. isso
bastou até o momento em que não bastou mais. Você me bastou até me faltar. Era um
sentimento loucamente desenfreado, que fez o quarto ficar pequeno, o apartamento ficar
pequeno, os sonhos ficarem pequenos.. no fim das contas, foi você quem ficou pequeno
demais pra mim. Me escorria amor por entre os dedos enquanto o destinatário tinha a caixa
de correio abarrotada por envelopes ainda selados. Amor em demasia, pra uns, é amor
demais. Redirecionei. Aluguei um depósito, depois outro e outro. Não pedi nada de volta,
deixei contigo as linhas torpes de um amor que não coube mais em cativeiro. Contigo ainda
existem envelopes meus que hoje já não significam nada. Não significam mais nada.
Driih linda!
Tô pensando comigo mesmo... será que Deus faz uma troca? Leva todos os "maluco" do Restart e traz Renato Russo de volta? Leva Akon e traz Bob Marley? Leva Fresno e traz Sabotagem? Leva Luan Santana e vem o Bradley do Sublime? Leva Sean Kingston e traz de volta Tupac? Tipo promoção: levar todos os "maluco" do sertanejo universitário e voltar com Chico Science... trazer Raul Seixas no lugar da banda Cine, trazer Mamonas no lugar do Justin Bieber... Vai se foder, sou imparcial e agora a contracultura chegou! E, se o cenário musical tá uma merda, eu taco merda no ventilador! E, se nasci num orfanato de ideais, os meus sobrevivem nos interlúdios! E a cada segundo tem mais um mc, um beat maker e um home studio. E o exército se reúne a industria frágil, pois nossa geração não se limita a nada! "Simbora", molecada, vamos invadir o rádio, nossa revolução será televisionada!
"Um mundo sem ideais é como um corpo sem coração, coisas muito normais, já não o satisfaz, valores virtuais se perdem em meio à liquidação... se oriente, rapaz, aqui jaz a ideologia de uma geração!"
http://www.youtube.com/watch?v=6c7zcoHOr0Y&feature=related
"Um mundo sem ideais é como um corpo sem coração, coisas muito normais, já não o satisfaz, valores virtuais se perdem em meio à liquidação... se oriente, rapaz, aqui jaz a ideologia de uma geração!"
http://www.youtube.com/watch?v=6c7zcoHOr0Y&feature=related
Estou em um orelhão, tentando ligar para casa, gastei todo o meu dinheiro com você. Para onde foram os momentos? Baby, tá tudo errado! Onde estão os planos que fizemos para nós dois? Sim, eu, eu sei que é difícil recordar as pessoas que costumávamos ser, é ainda mais difícil imaginar que você não está aqui ao meu lado... Você disse que é tarde demais para conseguir, mas, será tarde demais para tentar? E no nosso tempo, que você desperdiçou, todas as nossas pontes foram queimadas. Eu desperdicei minhas noites, você apagou as luzes, agora estou paralizado, ainda preso naquele tempo em que chamávamos de amor... Mas, até mesmo o sol se põe no paraíso! Se o "felizes para sempre" existisse, eu ainda estaria segurando você assim... E todos esses contos de fadas são cheios de besteiras, mais uma maldita canção de amor e estarei de saco cheio! Você virou as costas para o amanhã, porque você se esqueceu de ontem, eu te emprestei o meu amor mas você o jogou fora. Você não pode esperar que eu esteja bem, eu não espero que você se importe, sei que disse isso antes, mas todas as nossas pontes foram queimadas...
De vez em quando, eu penso em todas as vezes que você me ferrou, mas me fez acreditar que era sempre algo que eu tinha feito. Mas, eu não quero viver desse jeito, lendo cada palavra que você diz.... Você disse que poderia deixar isso passar e eu não te pegaria preso em alguém que você conheceu! Mas, você não precisava me cortar, fingir como se nada tivesse acontecido e que não éramos nada! E eu nem sequer preciso do seu amor, mas, você me trata como um estranho e isso é tão rude! Não, você não precisava se rebaixar tanto, mandar seus amigos pegarem seus discos e depois mudar o seu número... Embora eu ache que eu não preciso disso, agora você é apenas alguém que eu conheci.
Boa sorte pra você que acha que é forte e foda, tem roupa importada, cordão e relógio da moda. E eu garanto que sua beleza não interfere, como eu já disse: "Não ataco ninguém os fracos que se ferem...". Não tô generalizando nada, existem exceções, algumas tem corações, são poucas nas multidões. E essas são julgadas "carne de segunda", mas merecem parabéns por não ser como a maioria das vagabunda. De que adianta ter peito e bunda, se a cabeça é oca e inteligência é pouca? Tá, ganha a vida mas conceito é zero! Sinto muito se doeu, é que eu sou sincero... Então, repare bem pra quem tu sede confiança senão surge uma criança, paga pensão ou fiança! Esse mundo anda cheio de serpente, virou as costas nego é "CLAP CLAP BOOM!" de repente.
Elas querem dinheiro, fama, poder, status, elas não são cinderelas, brother, aceite os fatos! Saia justa, sem calcinha, pisca o olho... ela te suga até não sobrar o que sugar, aí, ela parte pra outra.
Agora é hora de ir embora, vai chorar, vacilona! Vai chorar, vacilona! Mas, não, não adianta só chorar, gata você perdeu! Vai, se mata 'carai', não, mas pelo menos sai, porque eu não quero e não espero ver quem deu o mio. É você? Desvio! Prefiro ficar no frio mil vezes a buscar prazeres no seu corpo vazio, viu?! A história não continua, meu nome agora tá na rua, da sua vida ele sumiu! Lembra de quando tava te procurando, ficava te ligando, escutava chamando, você andava me tirando para as outras amigas passando? Agora, arranja briga só porque a fila tá andando, minas se aproximando, minhas rimas escutando, pra cima levantando as mãos, no show tão colando... E você me perguntando com que eu tô gastando meu tempo, vai, dá um tempo, que agora não tá sobrando!
http://www.youtube.com/watch?v=7TbretqQH9whttp://www.youtube.com/watch?v=7TbretqQH9w
http://www.youtube.com/watch?v=7TbretqQH9whttp://www.youtube.com/watch?v=7TbretqQH9w
Meu sentimento é recíproco, chapa! Quem não come cedo, só fica com a rapa. Os cana embaça, as mina me caça, neblina na frente, meu olho embrasa. Deixa o novato achar que é da casa, deixa os 'hilário' rir da nossa cara. No sapatinho, é Rap do Rio chegando, mais uma pedrada, fazendo fumaça, não falo mais nada... Tem gente que nada e se afoga na praia, meia dúzia de gente, inteligente, que fala da gente e vive na falha... Relaxa, que o tempo é o senhor da razão, só os ratos sobrevivem com tanta poluição sonora. Neguin, essa é a hora! É o meu momento, vivendo fazendo a trajetória. As pessoas tão sentadas e se julgam, em vez de levantar a cabeça e tentar entender o próprio mundo oculto... oprimido e diferente, em um passado de ostentação da minha mente inteligente, insana e sagaz, mas a disputa aqui é de quem luta e quem fala mais... alto!
http://www.youtube.com/watch?v=F6p0azSTPSY&feature=player_embedded#!
http://www.youtube.com/watch?v=F6p0azSTPSY&feature=player_embedded#!
Jornalista: Bom... eu queria que você começasse definindo a você mesmo.
Gustavo Acioli: Eu sou um sonhador. Acima de tudo, um sonhador. Todas as vezes que fui feliz na vida, foi quando eu me permiti sonhar, delirar, inventar as coisas. Sonhar com um mundo melhor, com um país melhor... Imaginar como vai ser quando tudo for diferente, quando eu tiver conseguido realizar meus sonhos. O sonho, ele te empolga. Você começa a acreditar naquilo, te dá uma coragem, uma força. Agora, toda vez que eu tentei me adequar à realidade, eu fui extremamente infeliz, sabe. Você começa a pensar nas dificuldades, em tudo que pode dar errado... é a sabedoria dos medíocres. A segurança, o bom senso. Você não pode ousar, tentar fazer diferente. Quando você depende do reconhecimento alheio é uma merda, porque você não pode simplesmente existir, a sociedade é que tem que dizer que você merece existir e ser feliz! E é nisso aí que os medíocres dominam, porque eles são a maioria. Então, isso aqui virou o Império da Mediocridade. Bom é ser igual! Bom é ser ruim! É por isso que rapidamente o sujeito tem que ser capaz de desenvolver um certo cinismo pra poder sobreviver. O cinismo é como uma vacina. Na vacina, a pessoa é infectada por um vírus inócuo pra desenvolver a imunidade contra o vírus de verdade. O cinismo é assim: você fica meio acanalhado pra poder não adoecer no contato com a canalhice. O sujeito chega aos 30 anos e já é um amargurado, pelo simples fato de ser brasileiro. Porque ele vive numa realidade que é antibiótica, massacrante.
Jornalista: Mas você não acha que as coisas podem melhorar?
Gustavo Acioli: Olha, as chances das coisas melhorarem são iguais às chances das coisas piorarem. O problema é que a gente vive numa merda tão grande que as pessoas precisam se agarrar a uma esperança, acreditar em alguma coisa, pra não entrar em depressão profunda, pra não se matar. A religião, por exemplo, é um antidepressivo igual a esses remédios que dão aí pros malucos, que o cara fica todo bobo: Jesus... Jesus... Acaba com o cérebro do sujeito. Passa a ter só vida funcional: acorda todo dia de manhã, pega o ônibus, vai pro trabalho... No trabalho ele só tem que fazer operações básicas, tá tudo nas cartilhas, nos manuais. Ninguém precisa inventar nada, porque os gringos já pensam em tudo por nós, é só copiar o que eles fazem. É só traduzir mal traduzido os manuais que vêm de lá. É tudo assim. A novela, toda essa babaquice da TV, é tudo antidepressivo. É tudo droga, tudo tem efeito psíquico. Daí tem a dose de jornalismo que é pra dar aquele choque pra dose de novela que vem depois fazer mais efeito. E é aquele jornalismo de merda, né. O cidadão tá ali sério, compenetrado, querendo se informar pra saber das coisas e tá sendo feito de palhaço, de otário, sendo manipulado, imbecilizado do mesmo jeito. É o imbecil bem informado. Tudo é entorpecente. Marx dizia mais ou menos isso, só que ele nunca poderia imaginar que o próprio marxismo seria o ópio de muita gente também. Eu fumo só de sacanagem. Nego fica dizendo: quem fuma é isso, quem fuma é aquilo. É um fascismo do caralho, porra! Vá se foder.
Jornalista: Você não acha que esse teu discurso não leva ninguém a lugar nenhum?
Gustavo Acioli: Que discurso?
Jornalista: Isso que você tava falando antes.
Gustavo Acioli: Acho. É verdade, acho sim.
Filho do Gustavo Acioli: Pai! Você tá demorando muito pra gente ir pra piscina.
Gustavo Acioli: Ô, filho! Já tô indo, tá? O papai tá trabalhando. Já tô indo. Vai lá com a mamãe que eu já vou. Esse aí eu botei na Lei de Incentivo à Cultura. É sério! Eu fiz um projeto de documentário pra acompanhar o crescimento dele e aprovei no ministério. É sério!
Jornalista: E como é que todas essas questões que te tocam tanto, que te deixam assim tão exaltado, afetam o teu trabalho de artista?
Gustavo Acioli: Agora eu tô passando por uma crise muito grande, sabe. Mas não é crise de criatividade não, é crise temática. Eu não tenho nada pra dizer... Porra, eu sou branco, homem, heterossexual, tenho grana... Eu vou falar do quê? Eu penso muito nisso. Vou falar de amor? Amor é o caralho! Daí, você vai dizer: mas você é brasileiro, já não basta? Eu sei, eu ando pelas ruas. Eu vejo TV, porra! Eu vejo uma criança na rua pedindo dinheiro, isso me comove, me revolta. Mas, daí, eu vou falar o quê? Isso tá errado, isso não pode, isso me deixa triste? Vou xingar o presidente, Deus e o mundo? Tá entendendo? Eu vejo o sofrimento, mas eu, particularmente, não sofro. E eu acho uma pretensão muito grande falar em nome dos pobres, falar em nome dos outros. É aquela história dos intelectuais dos anos 60, né, Cinema Novo! Falar em nome do povo. Falar pro povo as coisas que ele tem que saber pra se libertar. É ridículo! Os pobres, os discriminados, os oprimidos sabem dizer sozinhos, sabem se expressar sozinhos, não precisam da arrogância de um cara branco e bem alimentado como eu. E digo mais: estão achando suas próprias soluções, independentemente do Estado, dessa imprensa calhorda e dos intelectuais. Então, pra quem é representante de uma classe falida, como eu, de um projeto falido, o que me resta é observar o povo. E olha aqui a contradição, ó: o intelectual brasileiro, os ricos deste país, dizem o povo, quando, na verdade, tão se referindo só aos pobres. Tá vendo? Eu mesmo acabei de cometer esse ato falho agora. Quer dizer, não existe um Povo Brasileiro do qual todos fazem parte. Povo são os pobres. Os ricos são outra coisa. Então, eu não vou falar de fome, porque eu não sei o que é fome. Falar em nome dos que têm fome? Eu considero um desrespeito, uma afronta, eu falar de fome pra quem tem fome, ou em nome dos que têm fome. Eu não vou falar de revolta com a polícia, porque a polícia não me pára, não me revista, não me bate. Quando um policial tem que falar comigo, ele me chama de doutor, entendeu? Então, eu tenho é que ficar na minha, e ver se acho alguma coisa boa pra dizer. Por enquanto, eu ainda não achei nada. E quem não tem nada pra dizer tem mais é que ficar calado. Quer um queijo? Não?
Gustavo Acioli: Eu sou um sonhador. Acima de tudo, um sonhador. Todas as vezes que fui feliz na vida, foi quando eu me permiti sonhar, delirar, inventar as coisas. Sonhar com um mundo melhor, com um país melhor... Imaginar como vai ser quando tudo for diferente, quando eu tiver conseguido realizar meus sonhos. O sonho, ele te empolga. Você começa a acreditar naquilo, te dá uma coragem, uma força. Agora, toda vez que eu tentei me adequar à realidade, eu fui extremamente infeliz, sabe. Você começa a pensar nas dificuldades, em tudo que pode dar errado... é a sabedoria dos medíocres. A segurança, o bom senso. Você não pode ousar, tentar fazer diferente. Quando você depende do reconhecimento alheio é uma merda, porque você não pode simplesmente existir, a sociedade é que tem que dizer que você merece existir e ser feliz! E é nisso aí que os medíocres dominam, porque eles são a maioria. Então, isso aqui virou o Império da Mediocridade. Bom é ser igual! Bom é ser ruim! É por isso que rapidamente o sujeito tem que ser capaz de desenvolver um certo cinismo pra poder sobreviver. O cinismo é como uma vacina. Na vacina, a pessoa é infectada por um vírus inócuo pra desenvolver a imunidade contra o vírus de verdade. O cinismo é assim: você fica meio acanalhado pra poder não adoecer no contato com a canalhice. O sujeito chega aos 30 anos e já é um amargurado, pelo simples fato de ser brasileiro. Porque ele vive numa realidade que é antibiótica, massacrante.
Jornalista: Mas você não acha que as coisas podem melhorar?
Gustavo Acioli: Olha, as chances das coisas melhorarem são iguais às chances das coisas piorarem. O problema é que a gente vive numa merda tão grande que as pessoas precisam se agarrar a uma esperança, acreditar em alguma coisa, pra não entrar em depressão profunda, pra não se matar. A religião, por exemplo, é um antidepressivo igual a esses remédios que dão aí pros malucos, que o cara fica todo bobo: Jesus... Jesus... Acaba com o cérebro do sujeito. Passa a ter só vida funcional: acorda todo dia de manhã, pega o ônibus, vai pro trabalho... No trabalho ele só tem que fazer operações básicas, tá tudo nas cartilhas, nos manuais. Ninguém precisa inventar nada, porque os gringos já pensam em tudo por nós, é só copiar o que eles fazem. É só traduzir mal traduzido os manuais que vêm de lá. É tudo assim. A novela, toda essa babaquice da TV, é tudo antidepressivo. É tudo droga, tudo tem efeito psíquico. Daí tem a dose de jornalismo que é pra dar aquele choque pra dose de novela que vem depois fazer mais efeito. E é aquele jornalismo de merda, né. O cidadão tá ali sério, compenetrado, querendo se informar pra saber das coisas e tá sendo feito de palhaço, de otário, sendo manipulado, imbecilizado do mesmo jeito. É o imbecil bem informado. Tudo é entorpecente. Marx dizia mais ou menos isso, só que ele nunca poderia imaginar que o próprio marxismo seria o ópio de muita gente também. Eu fumo só de sacanagem. Nego fica dizendo: quem fuma é isso, quem fuma é aquilo. É um fascismo do caralho, porra! Vá se foder.
Jornalista: Você não acha que esse teu discurso não leva ninguém a lugar nenhum?
Gustavo Acioli: Que discurso?
Jornalista: Isso que você tava falando antes.
Gustavo Acioli: Acho. É verdade, acho sim.
Filho do Gustavo Acioli: Pai! Você tá demorando muito pra gente ir pra piscina.
Gustavo Acioli: Ô, filho! Já tô indo, tá? O papai tá trabalhando. Já tô indo. Vai lá com a mamãe que eu já vou. Esse aí eu botei na Lei de Incentivo à Cultura. É sério! Eu fiz um projeto de documentário pra acompanhar o crescimento dele e aprovei no ministério. É sério!
Jornalista: E como é que todas essas questões que te tocam tanto, que te deixam assim tão exaltado, afetam o teu trabalho de artista?
Gustavo Acioli: Agora eu tô passando por uma crise muito grande, sabe. Mas não é crise de criatividade não, é crise temática. Eu não tenho nada pra dizer... Porra, eu sou branco, homem, heterossexual, tenho grana... Eu vou falar do quê? Eu penso muito nisso. Vou falar de amor? Amor é o caralho! Daí, você vai dizer: mas você é brasileiro, já não basta? Eu sei, eu ando pelas ruas. Eu vejo TV, porra! Eu vejo uma criança na rua pedindo dinheiro, isso me comove, me revolta. Mas, daí, eu vou falar o quê? Isso tá errado, isso não pode, isso me deixa triste? Vou xingar o presidente, Deus e o mundo? Tá entendendo? Eu vejo o sofrimento, mas eu, particularmente, não sofro. E eu acho uma pretensão muito grande falar em nome dos pobres, falar em nome dos outros. É aquela história dos intelectuais dos anos 60, né, Cinema Novo! Falar em nome do povo. Falar pro povo as coisas que ele tem que saber pra se libertar. É ridículo! Os pobres, os discriminados, os oprimidos sabem dizer sozinhos, sabem se expressar sozinhos, não precisam da arrogância de um cara branco e bem alimentado como eu. E digo mais: estão achando suas próprias soluções, independentemente do Estado, dessa imprensa calhorda e dos intelectuais. Então, pra quem é representante de uma classe falida, como eu, de um projeto falido, o que me resta é observar o povo. E olha aqui a contradição, ó: o intelectual brasileiro, os ricos deste país, dizem o povo, quando, na verdade, tão se referindo só aos pobres. Tá vendo? Eu mesmo acabei de cometer esse ato falho agora. Quer dizer, não existe um Povo Brasileiro do qual todos fazem parte. Povo são os pobres. Os ricos são outra coisa. Então, eu não vou falar de fome, porque eu não sei o que é fome. Falar em nome dos que têm fome? Eu considero um desrespeito, uma afronta, eu falar de fome pra quem tem fome, ou em nome dos que têm fome. Eu não vou falar de revolta com a polícia, porque a polícia não me pára, não me revista, não me bate. Quando um policial tem que falar comigo, ele me chama de doutor, entendeu? Então, eu tenho é que ficar na minha, e ver se acho alguma coisa boa pra dizer. Por enquanto, eu ainda não achei nada. E quem não tem nada pra dizer tem mais é que ficar calado. Quer um queijo? Não?
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