Rótulos me parecem cada vez mais precários. Às vezes mais confundem do que esclarecem. Mas eventualmente são indispensáveis para que as coisas tomem forma, destacando-se da complexa realidade e do nebuloso pensamento nosso. A maior parte dos textos deste livro podem-se chamar de crônicas. Muitos foram publicados em jornal, outros são avulsos que saíram não lembro bem quando nem onde, ou apenas salvei no computador. Vários escrevi especialmente para este livro. Romances, ensaios, poemas e textos breves são o meu jeito de rondar algo que me assusta ou seduz. São os meus temas, alguns dos temas humanos: tramas e dramas existenciais, o sentido o valor da vida, o banal e o misterioso. A sentença que lançamos sobre nós mesmos, em nossas escolhas ou silêncios. Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. Aqui e ali, a noite escura. Não inventei ao dizer que meu leitor é cada vez mais a síntese dos amigos imaginários que me fizeram companhia na infância das minhas perplexidades. Então, venha comigo. Lya Luft - Pensar é Transgredir
"60% dos jovens de periferia, sem antecedentes criminais, já sofreram violência policial. Há cada 4 pessoas mortas pela policia, 3 são negras. Nas universidades brasileiras, apenas 2% dos alunos são negros. Há cada 4 horas, um jovem negro morre violentamente em São Paulo. Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente..."


(...)

Brown: Colou dois manos, um acenou pra mim, de jaco de cetim, de tênis e calça jeans...
Ice Blue: Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola... Não vale a pena dar ideia nesse tipo, aí! Ontem à noite, eu vi na beira do asfalto tragando a morte, soprando a vida pro alto... Ó os caras: só pó, pele e osso, no fundo do poço com vários flagrantes no bolso...
Brown: Veja bem, ninguém é mais que ninguém, veja bem, veja bem, eles são nossos irmãos também...
Ice Blue: Mas de cocaína e crack, whisky e conhaque, os manos morrem, rapidinho, sem lugar de destaque!
Brown: Mas, quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma? Nem dá, nunca te dei porra nenhuma! Você fuma o que vê, entope o nariz, bebe tudo o que vê, faça o diabo feliz! 
Você vai terminar, tipo um outro mano lá que era um preto, tipo A, ninguém tava numa, mó estilo, de calça Calvin Klein e tênis Puma, é... no jeito humilde de ser no trampo e no rolê... Curtia uns funks, jogava uma bola, buscava a preta dele no portão da escola... Exemplo pra 'nóis', mó moral, mó ibope, mas começou a colar com os branquinhos do shopping... aí, já era! Ih, mano, outra vida, outro pique... só mina de elite, balada, vários drinks... Puta de boutique, toda aquela porra, sexo sem limite, sodoma e gomorra. Faz uns nove anos, tem uns quinze dias atrás eu vi o mano, cê tem que ver: pedindo cigarro para o tiozinho no ponto, dentes todos zoados, bolso sem nenhum conto. O cara cheira mal, a tia sente medo, muito louco de sei-lá-o-que logo cedo! Agora, não oferece mais perigo... viciado, doente, fodido, inofensivo!
                     



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