Rótulos me parecem cada vez mais precários. Às vezes mais confundem do que esclarecem. Mas eventualmente são indispensáveis para que as coisas tomem forma, destacando-se da complexa realidade e do nebuloso pensamento nosso. A maior parte dos textos deste livro podem-se chamar de crônicas. Muitos foram publicados em jornal, outros são avulsos que saíram não lembro bem quando nem onde, ou apenas salvei no computador. Vários escrevi especialmente para este livro. Romances, ensaios, poemas e textos breves são o meu jeito de rondar algo que me assusta ou seduz. São os meus temas, alguns dos temas humanos: tramas e dramas existenciais, o sentido o valor da vida, o banal e o misterioso. A sentença que lançamos sobre nós mesmos, em nossas escolhas ou silêncios. Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. Aqui e ali, a noite escura. Não inventei ao dizer que meu leitor é cada vez mais a síntese dos amigos imaginários que me fizeram companhia na infância das minhas perplexidades. Então, venha comigo. Lya Luft - Pensar é Transgredir
“Sou Cachorrona Mesmo 
E late que eu vou passar 
Agora eu sou solteira e ninguém vai me segurar”. 

O pianista de jazz norte-americano Horace Silver – que certamente se ofenderia ao ver o que fizeram com sua criação musical, no refrão do funk acima –, por volta de 1965, teve a feliz ideia de fundir o tradicional ritmo de New Orleans à soul music. Nascia, assim, o legítimo movimento funk, repleto de musicalidade, talento e, principalmente, “swing”. Os americanos se orgulham até hoje dele. É um traço mundialmente conhecido desse povo. No início dos anos 80, o funk chega ao Brasil. A partir daí, o que sobreviveu das origens desse estilo musical foi só nome. Por isso mesmo, músicos tradicionais, como é o caso do jazzista Thelonious Monk, afirmam que o funk brasileiro não pode ser chamado de funk. “A origem é outra, o ritmo é outro, além de que o caráter artístico do funk verde e amarelo pode ser duramente questionado”, dizem. A partir de 1990, o funk, já com as letras das músicas cantadas em português, passa a dominar os bailes de bairros periféricos do Rio de Janeiro. Distanciando-se cada vez mais de suas origens, o funk agora adota temas como a exclusão social, a violência nas grandes cidades, o crime e o submundo das grande cidades, ou seja, o lado negro do mundo. Em pouco tempo, os palcos dos bailes se transformaram em cenário de violência e clara apologia ao mundo do sexo sem compromisso e banalizado, muitas vezes descrito e incitado como o único objetivo de homens e mulheres. Hoje, aos olhos de quem estuda o assunto, o funk é visto como estilo musical secundário, muitas vezes utilizado como pretexto para encurtar os limites entre a sexualidade natural humana e a perigosa promiscuidade. Mas Horace Silver pode ficar tranqüilo: ele não tem nada a ver com isso.


                                Gaiola das Nojentudas.

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