Rótulos me parecem cada vez mais precários. Às vezes mais confundem do que esclarecem. Mas eventualmente são indispensáveis para que as coisas tomem forma, destacando-se da complexa realidade e do nebuloso pensamento nosso. A maior parte dos textos deste livro podem-se chamar de crônicas. Muitos foram publicados em jornal, outros são avulsos que saíram não lembro bem quando nem onde, ou apenas salvei no computador. Vários escrevi especialmente para este livro. Romances, ensaios, poemas e textos breves são o meu jeito de rondar algo que me assusta ou seduz. São os meus temas, alguns dos temas humanos: tramas e dramas existenciais, o sentido o valor da vida, o banal e o misterioso. A sentença que lançamos sobre nós mesmos, em nossas escolhas ou silêncios. Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. Aqui e ali, a noite escura. Não inventei ao dizer que meu leitor é cada vez mais a síntese dos amigos imaginários que me fizeram companhia na infância das minhas perplexidades. Então, venha comigo. Lya Luft - Pensar é Transgredir
Vamos celebrar a estupidez humana, a estupidez de todas as nações. O meu país e sua corja de assassinos, covardes, estupradores e ladrões. Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão. Vamos celebrar o nosso governo e nosso estado que não é nação. Celebrar a juventude sem escolas, as crianças mortas, celebrar nossa desunião. Vamos celebrar Eros e Thanatus, Perséphone e Hades. Vamos celebrar nossa tristeza. Vamos celebrar nossa vaidade. Vamos comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado todos os mortos nas estradas, e os mortos por falta de hospitais. Vamos celebrar nossa justiça, a ganância e a difamação. Vamos celebrar os preconceitos e o voto dos analfabetos. Comemorar a água podre todos os impostos, queimadas, mentiras e sequestros. Nosso castelo de cartas marcadas, o trabalho escravo e nosso pequeno universo. Toda a hipocrisia e toda a afetação, todo o roubo e toda a indiferença. Vamos celebrar epidemias, é a festa da torcida campeã. Vamos celebrar a fome, não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar. Vamos alimentar o que é maldade, vamos machucar um coração. Vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos, tudo o que é gratuito e feio, tudo o que é normal. Vamos cantar juntos o hino nacional (A lágrima é verdadeira). Vamos celebrar nossa saudade e comemorar a nossa solidão. Vamos festejar a inveja, a intolerância e a incompreensão. Vamos festejar a violência e esquecer a nossa gente que trabalhou honestamente a vida inteira e agora não tem mais direito a nada. Vamos celebrar a aberração de toda nossa falta de bom senso, nosso descaso por educação. Vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão. Está tudo morto e enterrado agora, já aqui também podemos celebrar a estupidez de quem cantou essa canção. \o/ (Legião Urbana)

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