Rótulos me parecem cada vez mais precários. Às vezes mais confundem do que esclarecem. Mas eventualmente são indispensáveis para que as coisas tomem forma, destacando-se da complexa realidade e do nebuloso pensamento nosso. A maior parte dos textos deste livro podem-se chamar de crônicas. Muitos foram publicados em jornal, outros são avulsos que saíram não lembro bem quando nem onde, ou apenas salvei no computador. Vários escrevi especialmente para este livro. Romances, ensaios, poemas e textos breves são o meu jeito de rondar algo que me assusta ou seduz. São os meus temas, alguns dos temas humanos: tramas e dramas existenciais, o sentido o valor da vida, o banal e o misterioso. A sentença que lançamos sobre nós mesmos, em nossas escolhas ou silêncios. Escrevo sobre isolamento e ternura, a perturbadora ambivalência nossa, frivolidade e covardia, às vezes a graça e o riso. Aqui e ali, a noite escura. Não inventei ao dizer que meu leitor é cada vez mais a síntese dos amigos imaginários que me fizeram companhia na infância das minhas perplexidades. Então, venha comigo. Lya Luft - Pensar é Transgredir
Quer saber de uma coisa? Tudo pode ser bom, ruim e principalmente assim assim. Tudo ao mesmo tempo ou não, e não necessariamente nessa ordem. Bom é chegar na praia à tardinha, anuncio de por de Sol, a água de ondas mansinhas. Jogar bola na espuma e sob o céu encaixar como se fora Tafaréu. É bom também quando começa a chover e as gotas fazem cócegas na superfície do mar, como se um cardume infinito prometesse matar a fome de todo o Vidigal, Rocinha, Cidade de Deus e Vigário Geral. Ruim é lembrar daquele amigo que de prancha na mão morreu de um beijo roubado de um raio, da lembrança a correria, o medo, o medo... medo é bom, ruim é o medo de ter medo. Bom voltar, trocar chuva por chopp e passar atrás da pelada. A bola vai pra fora e como na crônica de Rubem Braga: sobra pra você que mata no peito, faz embaixadinha e devolve redondo... num chute perfeito. Ruim é a fisgada na coxa, sair mancando disfarçadamente...  A vergonha de tá decadente não é ruim, ruim é o orgulho que se nega a reconhecer a decadência. É bom a cidade estranha em que você nunca esteve e sabe que nunca mais vai voltar. E nesse lugar você tem uma obrigação sem graça que cumpre com estilo e precisão, traçando um dia perfeito no arco do tempo. Quando cai a noite, é bom tomar um banho e sob o chuveiro, é bom sentir saudade, ruim é não ter saudade. E como é bom sair sem direção pelas ruas da cidade, pensando no que você fez da sua vida e no que a vida fez em você. Bom é sonhar, realizar não é tão bom, mas ruim mesmo é não realizar. O fim de um grande amor é muito, muito ruim, um grande amor não tem fim. Bom é amar, ruim é amar... Bom é encarar a vida com fantasia. Quando um poeta desaparece é bom colocar chapéu de Bogar que tudo pode solucionar...  Ruim é encontrar o precipício, morrer não deve ser tão ruim assim...  E pode ser bom falar sobre bom e ruim, e pode ser pior assim assim ... bom! 

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